domingo, 29 de novembro de 2009

O caminho de um aluno com deficiência numa classe inclusiva

Devemos em primeiro lugar conhecer o nosso aluno:

Observação: Usarei nomes fictícios para o aluno e a escola.

Aluno: Marcos Almeida Ribeiro.

Sexo: masculino

Idade: 07 anos

Série: Primeira série do Ensino Fundamental I

Escola: Escola Municipal Pedro Carvalho

PERFIL: Aluno introvertido, tímido, família de classe média baixa, seis irmãos, órfão de pai precisando também de ajuda para despertar sua capacidade de aprender.

DEFICIÊNCIA: Cegueira total sem déficit cognitivo aparente.

Já conhecemos o aluno, então vamos destacar alguns passos a serem seguidos no seu processo de inclusão na escola:

01 - A sensibilização: Preparar todo o pessoal envolvido na escola no processo ensino-aprendizagem, bem como o pessoal de apoio para melhor receber o aluno deficiente que de certa foram em primeiro contato será encarado como um ser diferente, mas que na verdade é apenas alguém que usa outro mecanismo para mecanismo se relacionar com o mundo a sua volta.

02 - A acessibilidade: A Escola está preparada para recebê-lo? Que mudanças a escola deverá realizar para uma melhor movimentação do mesmo? E a sala de aula é adequada? Em relação à acessibilidade um fator importante diz respeito à participação do pessoal de limpeza e arrumação da sala. É necessário que os móveis e equipamentos existentes estejam sempre nos mesmos lugares para uma maior adaptação do aluno, pois ele precisa memorizar a posição dos obstáculos.

03 - O apoio técnico: O professor precisará se engajar e participar de cursos como Braille e Soroban. Isso é indispensável. No caso do aluno Marcos, o Instituto Psicopedagógico terá a responsabilidade de treinar os profissionais da escola que estejam diretamente ligados ao processo de ensino-aprendizagem.

Programa de computador para cegos



Este vídeo mostra o programa de computador DOSVOX, uma ferramenta que possibilita uma maior idependência ao aluno deficiente visual e portanto facilita o processo de inclusão.

sábado, 28 de novembro de 2009

Inclusão Visual



Este vídeo mostra como deve ser o processo de inclusão de crianças com deficiência visual.

Experiência do professor José Alberto Ferreira Dos Santos

"Quantos olhos você tem pra me falar. Quantas bocas você diz a me olhar"
Música Pelo vinho e pelo pão. Autor: Zé Ramalho.

No final da década de 90 tive a felicidade de trabalhar com alguns alunos portadores de deficiência visual (cegueira total) numa das escolas da cidade.
No princípio, confesso que fiquei assustado, mas com o passar dos dias acabei abraçando o novo desafio como uma forma de exercer a cidadania, já que alguns colegas colocaram barreiras para desenvolver o projeto. Tenho certeza de que isso aconteceu não por má vontade deles, mais pelo mesmo sentimento que tive ao me deparar com a situação: medo.
A sala não era composta apenas pelos alunos portadores de deficiência visual, era uma sala como outra qualquer. Aliás, essa era a proposta da entidade que também estava engajada no projeto. Eles, os alunos assistiam aulas com todos os alunos não portadores de deficiência para que com isso pudessem exercer sua cidadania, o sentimento de igualdade e tivessem sua auto estima aumentada. O apoio técnico era dado no turno oposto na sede da entidade. Funcionava assim: Todo o material a ser trabalhado durante a semana era enviado com antecedência para que pudesse ser transcrito para o Braille. Lá, na entidade eles também tinham aulas de reforço. A mesma entidade ministrou para todos os professores da escola várias oficinas de Braille, Soroban e Libras.
A minha passagem por essa turma, que durou três anos, já que os acompanhei da primeira até a terceira série do Ensino Fundamental I foi marcante.
Um dos alunos sempre dizia para turma: "Eu não sou cego, eu apenas enxergo por um meio diferente de vocês". É verdade, eles podiam enxergar por um conjunto de "olhos" que todos nós temos, mas que a necessidade de cada um fez com que desenvolvessem todos os sentidos com o intuito de "enxergar" melhor.
Uma das alunas costumava brincar com a turma sempre que eu me aproximava da entrada da sala de aula. "Vocês querem que eu o enxergue de que maneira? Com meus ouvidos? Meu nariz? Ou com o maior órgão do corpo humano, ou seja, a pele?" E a garota sempre acertava. Certa vez eu a perguntei: E se eu não abrisse minha boca e alguém estivesse usando o mesmo perfume ou então não deixasse você tocar em minha mão, como você saberia quem sou? Ela respondeu com segurança: "Professor, antes ouvir sua voz, meus ouvidos já conhecem suas pisadas no chão."
Para finalizar, hoje estou muito feliz ao saber que muitos deles prosseguiram na busca de seus objetivos. Um deles conseguiu entrar na Faculdade de Direito e está se destacando lá. Os outros já estão a caminho. Algumas pessoas se perguntavam por que a escola aceitou colocar alunos deficientes visuais juntos daqueles considerados sem deficiência. Mas, quando visitavam a sala descobriam que não havia diferenças, a diferença estava dentro da nossa cabeça preconceituosa, ainda bem que consegui "abrir meu olho".

Cegueira total x Inclusão social

Segundo a Organização Mundial de Saúde – OMS, a cegueira total ou simplesmente amaurose, pressupõe completa perda de visão. A visão é nula, isto é, nem a percepção luminosa está presente. No jargão oftalmológico, usa-se a expressão “visão zero”. Dessa forma, abordar o tema “Cegueira total sem déficit cognitivo aparente” requer inicialmente uma série de reflexões e questionamentos, os quais demonstram que quanto maiores as oportunidades do deficiente visual experimentar situações variadas e de interagir com o ambiente que o rodeia, maior será o nível de desenvolvimento e de compreensão do mundo.
Nesse sentido, o professor (uma vez qualificado) assume um papel essencial tendo em vista que surge a necessidade de adequar suas metodologias de ensino para o atendimento a esses deficientes, respeitando suas diferenças, desenvolvendo suas capacidades e promovendo sua autonomia.
A educação tem hoje, portanto, um grande desafio: garantir o acesso aos conteúdos básicos que a escolarização deve proporcionar a todos os indivíduos, inclusive àqueles com necessidades educacionais especiais.
Sendo assim, com base nas necessidades dos deficientes visuais o professor precisa criar atividades que utilizem a criatividade do próprio deficiente para enriquecer suas aulas e motivar seus alunos à aprendizagem. Para explorar sua criatividade, o professor necessita dominar a fundamentação teórica que embasa seu trabalho, além de ter claros seus objetivos e deixar fluir sua imaginação.
Certamente, cada indivíduo vai requerer diferentes estratégias pedagógicas que lhes possibilitem o acesso à herança cultural, ao conhecimento socialmente construído e à vida produtiva, condições essenciais para a inclusão social e o pleno exercício da cidadania. Entretanto, devemos conceber essas estratégias não como medidas compensatórias e pontuais, mas sim como parte de um projeto educativo e social de caráter emancipatório e global.
A construção de uma sociedade inclusiva é um processo de fundamental importância para o desenvolvimento e a manutenção de um Estado democrático. Entende-se por inclusão a garantia, a todos, do acesso contínuo ao espaço comum da vida em sociedade. Sociedade essa que deve estar orientada por relações de acolhimento à diversidade humana, de aceitação das diferenças individuais, de esforço coletivo na equiparação de oportunidades de desenvolvimento, com qualidade, em todas as dimensões da vida.