sábado, 28 de novembro de 2009

Experiência do professor José Alberto Ferreira Dos Santos

"Quantos olhos você tem pra me falar. Quantas bocas você diz a me olhar"
Música Pelo vinho e pelo pão. Autor: Zé Ramalho.

No final da década de 90 tive a felicidade de trabalhar com alguns alunos portadores de deficiência visual (cegueira total) numa das escolas da cidade.
No princípio, confesso que fiquei assustado, mas com o passar dos dias acabei abraçando o novo desafio como uma forma de exercer a cidadania, já que alguns colegas colocaram barreiras para desenvolver o projeto. Tenho certeza de que isso aconteceu não por má vontade deles, mais pelo mesmo sentimento que tive ao me deparar com a situação: medo.
A sala não era composta apenas pelos alunos portadores de deficiência visual, era uma sala como outra qualquer. Aliás, essa era a proposta da entidade que também estava engajada no projeto. Eles, os alunos assistiam aulas com todos os alunos não portadores de deficiência para que com isso pudessem exercer sua cidadania, o sentimento de igualdade e tivessem sua auto estima aumentada. O apoio técnico era dado no turno oposto na sede da entidade. Funcionava assim: Todo o material a ser trabalhado durante a semana era enviado com antecedência para que pudesse ser transcrito para o Braille. Lá, na entidade eles também tinham aulas de reforço. A mesma entidade ministrou para todos os professores da escola várias oficinas de Braille, Soroban e Libras.
A minha passagem por essa turma, que durou três anos, já que os acompanhei da primeira até a terceira série do Ensino Fundamental I foi marcante.
Um dos alunos sempre dizia para turma: "Eu não sou cego, eu apenas enxergo por um meio diferente de vocês". É verdade, eles podiam enxergar por um conjunto de "olhos" que todos nós temos, mas que a necessidade de cada um fez com que desenvolvessem todos os sentidos com o intuito de "enxergar" melhor.
Uma das alunas costumava brincar com a turma sempre que eu me aproximava da entrada da sala de aula. "Vocês querem que eu o enxergue de que maneira? Com meus ouvidos? Meu nariz? Ou com o maior órgão do corpo humano, ou seja, a pele?" E a garota sempre acertava. Certa vez eu a perguntei: E se eu não abrisse minha boca e alguém estivesse usando o mesmo perfume ou então não deixasse você tocar em minha mão, como você saberia quem sou? Ela respondeu com segurança: "Professor, antes ouvir sua voz, meus ouvidos já conhecem suas pisadas no chão."
Para finalizar, hoje estou muito feliz ao saber que muitos deles prosseguiram na busca de seus objetivos. Um deles conseguiu entrar na Faculdade de Direito e está se destacando lá. Os outros já estão a caminho. Algumas pessoas se perguntavam por que a escola aceitou colocar alunos deficientes visuais juntos daqueles considerados sem deficiência. Mas, quando visitavam a sala descobriam que não havia diferenças, a diferença estava dentro da nossa cabeça preconceituosa, ainda bem que consegui "abrir meu olho".

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